joão gilberto vaz joao gilberto vaz

Para capitão do tri, seleção de 2014 é mediana e semifinal “será lucro”

Capitão da seleção brasileira campeã mundial em 1970, Carlos Alberto Torres é um óbvio entrevistado para assuntos de futebol brasileiro. Especialmente porque, apesar de estar se aproximando dos 70 anos, o ex-jogador de Santos, Fluminense e New York Cosmos não deixou de expressar opiniões mais polêmicas.

Em entrevista ao UOL Esporte em seu escritório, na Barra da Tijuca, Torres não faz diplomacia ao analisar a seleção brasileira: para o “capita”, a equipe não deve ser incluída entre as favoritas para a Copa do Mundo de 2014, apesar de sua crença num possível auge para a geração de Neymar quatro mais tarde, na Rússia.

“Temos que ser realistas, hoje somos uma seleção mediana, como mostra o próprio ranking da Fifa”, afirma.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

UOL Esporte: Como você está vendo a preparação para a Copa do Mundo de 2014?

Carlos Alberto Torres: Vejo como uma oportunidade perdida. O simples fato de termos a oportunidade de sediar a Copa já é genial. Mas perdemos tempo para trabalhar o legado. Não mexemos nos aeroportos, por exemplo. Perdemos uma grande oportunidade de mostrar um pouco mais o nosso país, de chamar mais atenção para o turismo, por exemplo. Estive num bando de feiras no exterior e ainda se fala muito mais em Copacabana do que qualquer outra coisa. Temos condições de fazer uma Copa do Mundo melhor que a África do Sul. Mas o ideal é que não chegássemos ao Maracanã vendo tudo ainda terminando. Perdemos a chance de acabar com essa visão de que deixamos tudo para a última hora.

UOL Esporte: A seleção estará pronta a tempo?

Carlos Alberto Torres: Exponho a opinião de quem é do meio e foi jogador. O Brasil está em 19º no ranking da Fifa e ainda há quem ache que é a melhor seleção do mundo. Se tivéssemos outra cultura, de encarar a coisa como ela é, estariámos conscientes de que vamos ter um grande time para o Mundial de 2018. Agora, temos um time só de garotos. Não conheço na história da Copa do Mundo uma equipe que tenha sido campeã apenas com garotos, independentemente de quão boa tenha sido.

UOL Esporte: Mas não era inevitável com a transição de gerações?

Carlos Alberto Torres: Já deveríamos ter colocado alguns garotos na última Copa para dar experiência. O Neymar poderia ter sido usado em 2010 como o Ronaldo foi em 1994. A seleção que foi ao Mundial de 1966, por exemplo, teve jogadores que não foram usados, Jair teve poucas oportunidades, Tostão também. Na Copa de 1970, 10 jogadores tinham ido à última, que passaram por uma experiência de Mundial. Temos uma geração que poderá ser ótima em quatro anos e que dificilmente será campeã no ano que vem, mas quem é que vai admitir?

UOL Esporte: O capitão do tri está dizendo que o Brasil é zebra?

Carlos Alberto Torres: Não é que somos zebra. Uma competição curta como a Copa pode ter resultados mais surpreendentes, mas o Uruguai em 1950 e a Alemanha em 1954 foram as únicas zebras de verdade, que vieram do nada. A Itália em 1982, analisada jogador por jogador, era um time bom para caramba. E tinha experiência. A pressão psicológica sobre os meninos (do Brasil) vai ser muito grande. Eu lembro que em 70 as pessoas iam para a porta de nossa concentração falar de Maracanazo quando íamos jogar a semifinal com o Uruguai. Aquilo abalou nosso time antes da semifinal e tivemos problemas naquele jogo. Isso com caras experientes! Agora temos uma equipe jovem e ainda indefinida. Depois de três anos.

UOL Esporte: Você acredita que a mudança de técnico atrapalhou?

Carlos Alberto Torres: Não vejo os treinadores brasileiros fazendo nada de muito diferente. Todo muito praticamente continua usando o esquema com ênfase nos laterais. Isso está velho. A França parou o Brasil duas vezes, em 1998 e 2006, quando marcou o Cafu e o Roberto Carlos. Ainda damos mais ênfase à habilidade individual que ao conjunto. Mas a seleção ficou um pouco vulgarizada com o Mano. Precisava de alguém de mais peso para o cargo. O Felipão e o Parreira ao menos trazem um pouco mais de respeito.

UOL Esporte: Como renovar, então?

Carlos Alberto Torres: Não tenho nada pessoal contra o Mano, que me tratou muito bem quando o conheci num voo internacional. Mas ele pecou por não ter insistido com um time. Mudou muita gente, e ainda foi se vangloriar na TV de ter convocado 75 caras. O Brasil não tem 75 jogadores de nível para a selção. Tinha que ter preparado a garotada, desde o início, mas voltou atrás e trouxe os veteranos para a Copa América. Perdeu muito tempo.

UOL Esporte: Gostou da convocação para a Copa das Confederações?

Carlos Alberto Torres: É um bom grupo pelo que temos à diposição. Talvez se o Ganso acordasse, seria um jogador importante. Ronaldinho e Kaká, eu teria levado pela experiência. Mas um ou outro, porque os dois já estão na descendente. Neste momento, pela forma em campo, o Ronaldinho até mereceria um pouco mais. Gosto do Paulinho, mas não é o cara para colocar a bola embaixo do braço e resolver. Falta criatividade no meio. O Brasil hoje não tem um grande time. Se chegar à semifinal em 2014, já será um grande negócio.

UOL Esporte: Há quem veja um pouco de pessimismo…

Carlos Alberto Torres: Temos que ser realistas, hoje somos uma seleção mediana, como mostra o próprio ranking. O Felipão começou a acertar o time um pouco, com a zaga e o goleiro. Mas ainda há o que fazer. Mas muita gente ainda não sabe escalar o time do Brasil. Quando o time é bom, todo mundo sabe na ponta da língua.

UOL Esporte: Neymar pode enfim despontar com a mudança para Barcelona?

Carlos Alberto Torres: O Neymar teve uma oportunidade de jogar onde todo mundo quer jogar. Ele é um jogador de espetáculo, mas a hora em que ele passar a jogar mais simples, será ainda melhor. No Barcelona, ele tem tudo para evoluir, porque forçosamente terá que colocar na cabeça que precisará trabalhar muito para atingir o que se espera dele.

UOL Esporte: Jogadores da seleção têm reclamado um pouco das vaias da torcida. Adianta?

Carlos Alberto Torres: A vaia é própria do brasileiro, é nossa essa coisa de ir lá xingar, vaiar. Até a seleção de 70 ouviu. Tem que chegar e jogar, não pode virar algo que atrapalha a seleção. Simples.
FONTE: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2013/06/02/para-capitao-do-tri-selecao-de-2014-e-mediana-e-semifinal-sera-lucro.htm?cmpid=ctw-copa-do-mundo-2014-news

Publicar Comentário

*