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Brasil 97, uma prova no espaço – 1997

Publicado em: Gazeta Mercantil (Primeira Página) em 5 de Abril de 1997

Por Fátima Laranjeira e Marta Helena Tachinardi – de São Paulo e de Washington

A nova missão da nave Colúmbia vai cristalizar duas proteínas, um trabalho da USP.

Às 16 horas de hoje, quando os astronautas da missão STS-83, da nave Colúmbia, estiverem embarcando numa nova viagem espacial, suas roupas terão um detalhe imperceptível aos observadores comuns, mas certamente significativo para a comunidade acadêmica brasileira: ao lado do símbolo da Nasa estará o logotipo da Universidade de São Paulo (USP), que irá desenvolver uma experiência pioneira de biotecnologia no ônibus espacial americano. Com a viagem, a mais importante universidade brasileira passará a ostentar um novo feito inédito, entre os inúmeros que já detém: trata-se do primeiro experimento brasileiro desenvolvido numa missão espacial. O responsável pela façanha – primeira também entre as universidades latino-americanas – é o professor Glaucius Oliva, coordenador do Laboratório de Cristalografia de Proteínas do Instituto de Física da USP de São Carlos. Há cerca de oito meses ele apresentou ao Center for Macromolecular Crystallography da Universidade do Alabama um projeto de biotecnologia para desenvolver a cristalização de duas proteínas – uma ligada ao desenvolvimento da doença de Chagas e outra, sintetizada a partir da semente de jaca, que está sendo estudada no combate a infecções. Na terça-feira à noite. Oliva e seus assistentes acomodaram no ônibus espacial, no Kennedy Space Center, na Flórida, as duas soluções de proteínas e os compostos que serão a elas misturados no espaço. Os astronautas combinarão apenas uma gota de cada composto. Ao todo, serão 22 gotas com as duas proteínas. A partir daí, durante os 16 dias da viagem, a cristalização poderá ser fotografada por diversos ângulos. Da Terra, a equipe irá receber as imagens e monitorar à distância o experimento. Também será possível acompanhar o trabalho dos astronautas no espaço através da Internet. O endereço é http://liftoff.msfc.nasa.gov/spacelab/msl/main.html. Mas a experiência – importante não só para a cooperação entre o Brasil e os EUA, mas para o futuro da indústria de produtos espaciais no Brasil e laboratórios farmacêuticos – conta com um apoio importante. O projeto está sendo coordenado pela Brazilian Commercial Space Services (Brazsat). Segundo seu diretor, João Gilberto Vaz, esta é a única empresa no Brasil especializada em consultoria espacial e já está em entendimentos com o laboratório União Química, de São Paulo, para a comercialização de novos medicamentos a partir de experiências na órbita terrestre. “Há doze ou treze anos o Brasil tenta fazer um experimento como este, mas com a participação da Brazsat o negócio foi montado em dois a três meses”, contou Vaz. (Cont. A-4) Brasil 97, uma prova no espaço O Laboratório de Cristalografia de São Carlos, o Center for Macromolecular Crystallography da Universidade do Alabama, em Birmingham, nos EUA, e a Brazsat assinaram um acordo em dezembro. O centro do Alabama, dirigido por Larry DeLuca, é um dos quinze pólos de comercialização tecnológica da Nasa. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de São José dos Campos, também está envolvido no programa com engenheiros que participam das experiências espaciais. DeLuca disse que o centro que dirige formou um grupo de pesquisadores de seis países – Brasil, Argentina, Costa Rica, Chile, Uruguai e México – para levar adiante projetos na área de biotecnologia, inclusive pesquisa sobre plantas. O próximo passo será preparar uma proposta para receber recursos de uma organização internacional. A realização das pesquisas não custará menos que US$ 1 milhão por ano, estima. O projeto brasileiro foi selecionado pela Nasa por dois motivos. Primeiro, porque a universidade já tinha proteínas cristalizadas em quantidade suficiente para realizar o experimento na Columbia. Segundo, pela importância dos projetos para a saúde pública. A doença de Chagas atinge cerca de 20 milhões de pessoas no mundo, a maior parte delas concentrada na América do Sul e Central. Segundo a Organização Panamericana de Saúde, a doença deverá matar 43 mil pessoas este ano. Os Estados Unidos já têm 150 mil doentes e o mal está se alastrando em algumas áreas urbanas como resultado da imigração. Embora a transmissão pela picada do inseto (Triatoma infestans) esteja sob controle, a transfusão de sangue e a transmissão congênita são atualmente as principais causas da expansão da doença, contra a qual ainda não existem drogas efetivas. No caso da proteína da jaca, sua importância também é grande porque poderá contribuir para estudos sobre o combate às infecções. A equipe da USP quer descobrir um medicamento que ataque uma das fontes de energia do Trypanosoma cruzi, o causador da doença de Chagas, particularmente quando ele ainda se encontra na fase sangüínea. Ali se forma a cadeia glicolítica, processo em que a glicose é quebrada em uma série de reações catalisadas por enzimas. Como resultado, o parasita acumula energia. A idéia é conseguir drogas que bloqueiem as enzimas glicolíticas do Trypanosoma sem afetar as equivalentes humanas. Os pesquisadores da USP de São Carlos conseguiram purificar a enzima do Trypanosoma cruzi em grandes quantidades, cristalizá-la e, com técnicas cristalográficas, querem agora encontrar esse composto. A proteína da jaca, chamada Lectina km+, foi identificada há mais de 20 anos no campus da USP de Ribeirão Preto. Ela promove modificações nos glóbulos brancos semelhantes às que ocorrem quanto eles atravessam as paredes das artérias sangüíneas para atacar algum problema externo, como por exemplo uma infecção causada por um corte. “Aí eles ficam menores, mais estreitos, para poder atravessar os vasos. Essa alteração ocorre também na presença dessa proteína o que está sendo estudado e pode ser muito importante para combater infecções”, explica o professor Glaucius Oliva. Os pesquisadores da USP querem conhecer a estrutura tridimensional molecular das duas proteínas através do processo de cristalização das moléculas no espaço, onde o ambiente de microgravidade pode melhorar sensivelmente a qualidade dos cristais pela eliminação de efeitos de convecção, que ocorrem na terra. Com a ausência da gravidade o movimento das moléculas na solução de proteínas é mais lento e o processo tem melhor resultado. Isso permite obter uma imagem mais adequada, que proporciona um planejamento melhor do medicamento que os especialistas querem produzir. Esse é um trabalho multidisciplinar a ser desenvolvido em terra, conhecido como tecnologia do planejamento racional de drogas baseado em estruturas, que se baseia na inibição ou estimulação da atividade biológica de macromoléculas, proteínas ou ácidos nucleicos (DNA e RNA) responsáveis por várias doenças infecciosas (veja reportagem nessa página). “É uma tecnologia com enorme aplicabilidade e tem sido feita para outras áreas da indústria farmacêutica, como na criação dos inibidores de protease, usados no tratamento de aidéticos”, explica o professor Glaucius Oliva. O lançamento da missão espacial – previsto para hoje às 16h, horário de Brasília -reunirá em Cabo Canaveral o embaixador em Washington, Paulo Tarso Flecha de Lima, o diretor do Inpe, Márcio Barbosa, o coordenador do laboratório brasileiro, Glaucius Oliva, o reitor da USP, Flávio Fava de Moraes, além de Larry DeLuca e os deputados brasileiros Paulo Delgado (PT-MG) e Francisco Rodrigues (PPB-RO), ligados à Comissão de Defesa Nacional. Para o diretor da Brazsat, o acordo e todas as operações entre o Center for Macromolecular Crystallography e o Brasil criarão oportunidades para os laboratórios farmacêuticos brasileiros, universidades e o governo participarem de atividades comerciais relacionadas com o espaço. Isso não significa apenas que outras proteínas serão incluídas em outras viagens espaciais, mas abrirá caminho para um papel mais ativo do Brasil no programa da estação espacial internacional (ISS), disse João Vaz. “O governo brasileiro já está em negociação com a Nasa para o País entrar no segmento americano da estação espacial”, cujo primeiro módulo será lançado em novembro”, afirmou. A próxima missão espacial, a STS-84, que viajará em maio, testará microprocessadores em um programa envolvendo uma universidade paulista e um centro comercial da Nasa especializado nessa área.

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